Lições para enfrentarmos o coronavírus

Tenho 44 anos de idade e ainda me lembro do que senti no meu 18º aniversário.

Liberdade, independência, poder ir para onde eu quisesse. Bares, casas noturnas, shows e até mesmo a outros países sem pedir permissão ou dar satisfação a ninguém.

Era um sentimento incrível!

Entretanto, com 18 anos de idade eu não sabia como desfrutar a vida nem tinha dinheiro suficiente para fazer tudo aquilo que eu queria. Levei tempo para adquirir maturidade e conquistar minha liberdade econômica.

Cometi vários erros no caminho. Tive um filho sem estar preparado, me relacionei com pessoas erradas, desperdicei oportunidades, etc. Precisei lidar com as consequências das minhas decisões imaturas e isso me custou vários anos.

Agora, 26 anos depois, finalmente estou pronto para desfrutar a minha liberdade. Mas esta liberdade me está sendo arrancada. Não apenas de mim, mas de todos nós.

Que planos e sonhos você está tendo de renunciar ou pelo menos adiar devido ao coronavírus? O que está sendo tirado de você?

Nossa democracia está sendo atacada, e desta vez não conseguimos sequer enxergar nossos inimigos. Os malditos vírus são invisíveis aos nossos olhos!

Em menos de quatro meses, o coronavírus colocou o mundo inteiro do avesso. Por este caos ninguém esperava. As mortes que o vírus causou, e ainda irá causar, já são estrago mais que suficiente, mas o dano promete ser muito mais profundo.

O mundo que nós criamos está sob ameaça.

Nosso lindo sistema capitalista está se equilibrando em corda bamba neste momento.

Mas, sejamos honestos, há tempos temos nossas divergências com o capitalismo e a globalização. Até mesmo pensadores neoliberais ferrenhos, como Jordan Peterson, descrevem o capitalismo como “o pior sistema que existe, excetuando todos os demais”. Agora este sistema está sendo posto em xeque não por nós, mas por um vírus.

Por quanto tempo a economia global conseguirá sobreviver?

Quantas empresas vão conseguir ficar de pé com suas portas fechadas?

E nós, cidadãos, por quanto tempo podemos nos dar ao luxo de ficar em casa sem trabalhar?

Estará o nosso sistema colapsando?

O que nos espera no horizonte?

Nosso mundo não será o mesmo após o coronavírus. No entanto, nosso futuro está em nossas mãos e não nas do vírus (essas criaturas nem mãos têm). Neste momento não nos cabe tentar prever o futuro, mas agir. E, para isso, precisamos compreender que tipo de futuro estamos criando neste decisivo momento.

O que o coronavírus tem a nos ensinar, além da importância das máscaras e do álcool gel?

É essencial fazermos esta análise, já que o vírus ameaça não apenas nossas vidas, mas todo o sistema socioeconômico mundial.

Considerando que nossas políticas neoliberais vêm nos conduzindo a uma catástrofe ecológica e social irreversível, o vírus pode ser a nossa melhor chance de cura.

Portanto, saquemos deste apocalipse algumas lições fundamentais para reformularmos nossas vidas e garantirmos nossa sobrevivência enquanto espécie.

1) O sistema socioeconômico mundial é frágil

Esta máquina gigantesca feita de indústrias, corporações, trabalhadores, empresários, acionistas e políticos só existe e resiste porque nós a mantemos viva.

Nós não sustentamos isso tudo por prazer.

Na realidade, nós odiamos o sistema!

Nos tornamos uma civilização ressentida e frustrada! Temos raiva da vida, do sistema e de nossos líderes. Nossa raiva e frustração já chegaram ao nível do desespero. Chegamos ao ponto de eleger a mais baixa classe de tiranos para governar nossas nações, por nos encontrarmos desesperados e sem saída.

Entretanto, seguimos mantendo o sistema vivo, alimentando-o dia após dia, por não sabermos o que fazer e por não nos atrevermos a arriscar. Por não nos sentirmos capazes de quebrar a corrente capitalista e encontrar uma forma diferente de existir no mundo.

Mas, subitamente, um exército de criaturas invisíveis chega derrubando a coisa toda, peça por peça. Primeiro as companhias aéreas, logo os hotéis, escolas, teatros, shoppings, restaurantes e tudo o mais. A partir do momento em que paramos de sair de casa, toda uma série de estabelecimentos começa a cair como peças de um dominó. E aqui estamos, trancafiados em nossas casas. Mas o período mínimo para o desenvolvimento de uma vacina é um ano e meio. O que restaria se esperássemos todo este tempo? Que mundo encontraríamos após esse período?

Já podemos perceber os primeiros sinais de barbárie brotando do medo coletivo: prateleiras vazias nos supermercados. O que aconteceria se a maior parte da população mundial ficasse desempregada? Se bilhões de pessoas deixassem de receber seus salários e já não tivessem dinheiro para comida? E quando já não pudessem nem sequer pagar a Netflix? Você já se imaginou trancado em casa sem comida e sem Netflix? Nossa sociedade já é um barril de pólvora – se esse barril explodir, preferiríamos viver como Mad Max na Cúpula do Trovão a enfrentar a vida no século 21.

Com certeza, não vamos chegar a esse nível. Encontraremos soluções: medicinas, tratamentos e formas criativas de driblar nossas adversidades. Mas é importante enxergar que nosso sistema é muito mais frágil do que imaginávamos. O sistema pode colapsar.

Nós vivemos uma relação de interdependência com a máquina capitalista. Mas há uma diferença: se nós pararmos, a máquina morre. Se o sistema para, seguimos vivos.

Agora é hora de decidirmos se vamos nos aferrar às velhas estruturas e defendê-las com unhas e dentes, ou se vamos saltar deste barco furado e buscar alternativas mais conscientes, solidárias e sustentáveis.

2) Gastamos a maior parte do nosso tempo em coisas supérfluas

Nós trabalhamos muito mais do que necessitamos para sobreviver, apenas para mantermos vivo o sistema. Adoramos pensar que aquilo que fazemos é muito importante. Mas o que é fundamental para nossa vida? O que acontece quando você está trancado em casa, seus serviços profissionais são dispensados e você sequer sabe cozinhar?

Durante a revolução industrial, o mundo foi alimentado com propaganda massiva para que trabalhadores se sentissem importantes ao realizarem tarefas repetitivas. Há duzentos e cinquenta anos nossos ancestrais estavam operando máquinas gigantes, repetindo as mesmas tarefas mecânicas dia após dia, motivados por slogans como “seu trabalho significa vitória”.

Somos um subproduto daquele tempo. Continuamos sustentando o mesmo sistema, só que os slogans já não funcionam mais. Nosso progresso se tornou uma ameaça ao planeta.

O sistema que criamos está consumindo todos os recursos do planeta, inclusive nós, seres humanos.

Com certeza, nos sentimos vazios e frustrados com isso. Nosso progresso não apenas consome e destrói nossas florestas, rios e oceanos. Ele também nos consome! Mas não sabemos como parar, seguimos repetindo as mesmas tarefas, ao mesmo tempo em que tentamos anestesiar nossa dor nos enchendo de distrações e coisas supérfluas.

“Ok, não vejo sentido em minha vida”, você pode lamentar para si mesmo, “mas posso ganhar dinheiro, posso comprar um iphone novo com um milhão de recursos que nunca vou usar e com uma excelente câmera. E posso viajar nas férias com meu iphone, tirando e postando selfies pra mostrar ao mundo a vida maravilhosa que eu levo. Também posso encontrar mil maneiras de me manter bastante ocupado e assim não ter de enfrentar minha frustração. E ainda posso dizer pra mim mesmo o quão ocupado eu sou, só pra alimentar o meu ego frustrado com algum sentimento de autoimportância”.

Quando foi que nos perdemos no caminho?

Talvez tudo isso tenha começado com os slogans da revolução industrial. Quando nossos ancestrais compraram o sonho de serem parte de algo tão incrível que valeria a pena relegar sua vida pessoal, suas famílias e a si mesmos a um segundo plano.

Abandonamos nosso lugar na cadeia da vida em troca de um posto na corrente de produção. Nos tornamos peças da máquina capitalista. Mas, de repente, a máquina parou, nos deixando o desafio e a oportunidade de redefinirmos nosso significado e identidade.

E já que não temos escolha a não ser ficar em casa, agora temos a chance de voltar-nos para algumas questões essenciais, como dedicar-nos a nossa família, educar nossos filhos e cozinhar nossa própria comida. Recuperamos nosso bem mais precioso: nosso tempo. Claro, podemos continuar nos alienando através do Facebook, Instagram e TV, mas também podemos desacelerar e nos conectar com nosso ritmo interno.

Não ter de correr é uma bênção!

Finalmente podemos conectar-nos com nossas emoções, olhando para dentro e reavaliando nossa vida.

Talvez seja duro no começo. Quando paramos, temos de enfrentar sentimentos que vínhamos escondendo de nós mesmos. Tal enfrentamento pode nos desafiar a tomar decisões que mudarão o curso do nosso destino. E, quando a crise chegar ao fim, pode ser que estejamos transformados ao ponto de não aceitarmos mais aquela velha vida que estávamos vivendo.

Nós já construímos tecnologias incríveis. Mas, até agora, temos nos sacrificado pelo progresso. Talvez este seja o momento de fazer com que o progresso trabalhe por nós. Podemos fazer home office, educar nossas crianças em casa e plantar nossa horta caseira ou comunitária. Podemos, sim, viajar e ter lazer, mas sem negligenciar nosso relacionamento conosco e com nossa família. Podemos viver uma vida equilibrada. Isso pode soar utópico. Entretanto, o cenário atual, que mais parece um mix de filme de terror com ficção científica, está nos ensinando que isso não apenas é possível, mas talvez seja nossa única saída.

3) O medo destrói mais que o vírus

Se você estocou papel higiênico para três meses, por favor, da próxima vez que sentar no vaso sanitário, pense nos 10 seres humanos que, graças a você, estão desamparados, sem nada além das próprias mãos para se limparem neste momento.

Não é nada agradável ficar sem papel higiênico.

É horrível!

Mas pior ainda é não encontrar comida no supermercado nem remédio na farmácia. E quando você compra 10 litros de álcool gel, não está contribuindo para parar o vírus. Ao chegar nesse ponto, você já se tornou parte da doença.

É essencial compreendermos o que estamos fazendo neste momento. Nosso esforço coletivo é algo nobre!

Estamos priorizando a vida ao invés do nosso bem-estar. Estamos sacrificando nossos hábitos, nosso estilo de vida e transformando todo nosso sistema social. Mas só teremos sucesso se nos mantermos unidos (ainda que isolados em nossas casas) mirando nossa meta comum. Se perdermos nosso sentido de comunidade, mergulharemos em caos social, violência e fome. E tudo começa com a quantidade de papel higiênico que você vai comprar hoje.

Há basicamente duas atitudes a tomar perante o medo:

Uma é isolar-se dentro de uma casca de avareza e egoísmo. Podemos fechar os olhos para o resto do mundo, abandonar nossa razão e agir das maneiras mais absurdas e compulsivas. Quando sentimos medo, tendemos a pensar que estamos sós e desamparados, e que devemos lutar por nossa vida a todo custo. Mas este é um caminho muito perigoso, pois podemos nos tornar uma ameaça ao coletivo, agindo de forma irracional e terminando por colocar em risco nossa própria existência.

Em momentos de medo, devemos nos lembrar que não estamos sós. Devemos confiar no coletivo e encontrar formas cooperativas de lidar com o desafio à nossa frente. Foi assim que nossos ancestrais conseguiram triunfar como espécie, enquanto enfrentavam feras perigosas e outras adversidades.

Este é o segundo caminho que podemos tomar perante o medo. Podemos nos manter unidos, pensando e agindo como um coletivo. É incrível o paradoxo que estamos vivendo! Por muito tempo, estivemos rodeados de pessoas, mas completamente desconectados emocionalmente do nosso entorno. Agora, a situação exige que nos isolemos coletivamente para proteger nossa comunidade. Este é o nosso momento, nosso desafio e nossa oportunidade. Mas nosso esforço só vai funcionar se nos mantermos unidos em intenção.

Um único vírus não causa mal algum. Uma infecção é o resultado de uma multidão de vírus trabalhando juntos para prosperar no interior do nosso corpo. Talvez o coronavírus possa nos ensinar um caminho para sairmos da sociedade competitiva que criamos, a fim de que reencontremos nossa consciência coletiva. Depende de nós.

O que podemos fazer?

Não nos rendamos ao medo ou à negatividade. Não nos isolemos uns dos outros. Aproveitemos este momento para meditar e encontrar nosso ritmo interno. Enfrentemos nossos fantasmas e façamos as pazes conosco. Reconsideremos nosso estilo de vida. Estudemos um melhor relacionamento com nossa mãe, Gaya. Vamos usar a tecnologia que criamos, construindo uma realidade melhor. Nossa quarentena tem sido um alívio para o planeta! Mais silêncio, menos lixo e muito menos emissões de carbono.

É claro que não passaremos o resto de nossos dias em casa. Mas realmente necessitamos viajar e consumir tanto? Será que isso pelo menos nos traz alegria ou é apenas um comportamento compulsivo?

Não desperdice este momento. Organize sua vida interna. Estude a si mesmo.

Este vírus que ataca nossa capacidade respiratória exige que desaceleremos, que entremos dentro de nosso casulo e façamos uma pausa para respirarmos. Nós estávamos demasiado acelerados. Precisamos mesmo de uma pausa.

Neste meio tempo, o planeta também está respirando, livre da poluição e depredação causadas por nosso ritmo frenético.

Se neste momento você se sente sufocado em sua casa, está na hora reformular suas escolhas. De prestar atenção ao que você vem negligenciando. Se não há paz no seu cerne e harmonia em seu lar, não há como tomar atitudes equilibradas e saudáveis na vida.

Portanto se você está se sentindo asfixiado em seu lar e entediado consigo mesmo, não desperdice este momento! Redefina suas prioridades. Livre-se de tudo o que você ouviu sobre como deveria ser e agir, e abra as portas da sua consciência e do seu coração para encontrar suas próprias respostas.

Onde está a fonte de seus desequilíbrios?

Qual a raiz da sua ansiedade?

O que leva você a adotar um ritmo frenético?

O que a sua alma busca?

Como demonstrar amor e respeito para consigo?

Uma vez que tenha respondido a essas questões, você estará pronto para sentir do que você realmente é feito. Você é uma partícula de Gaya e não pode viver desconectado dela. Se a sua vida não estiver alinhada com a consciência deste ser vivo que é o nosso planeta, você se sentirá só, desconectado e doente. Mas, uma vez que regressa a este alinhamento com a vida e seu ritmo natural, você encontra dentro de si todo o poder, a paixão e a criatividade necessários para reformular sua vida e contribuir para a mudança coletiva de que tanto necessitamos.

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Rudá Iandê

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